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Dufour-Kowalska (1980:34-35) – manifestação do ser e representação

Data: 2022-03-15 18:45

Michel Henry. Un philosophe de la vie et de la praxis

II. L’affectivité ou l’essence dans son essence même

Quando Fichte identifica a existência do ser com a representação, esta identificação tem um significado preciso: significa a identidade do processo que realiza a manifestação do ser com o processo de redobramento próprio da representação. Representar é tornar presente num representado. A representação é a própria essência da consciência, isto é, da manifestação do ser, da sua presença absoluta, porque o seu processo é o próprio processo pelo qual o ser, separando-se de si mesmo, opondo-se a si mesmo, aparece a si mesmo, alcança-se a si mesmo devindo para si mesmo. Longe de constituir um modo particular e contingente de consciência, a representação é a sua própria essência, “ela reina, como Heidegger diria mais tarde, sobre todos os modos de consciência” 1). A representação é a essência da presença; ela determina toda a presença como “a presença de algo”, diz M. Henry, “que surge diante de, num meio de exterioridade” [MHEM, 100, itálico nosso]. No entanto, o que promove este espaço de manifestação, o que projeta o campo de presença, é o que definimos sob o conceito de sujeito, enquanto que o objeto é o que se dá nessa e através dessa operação. Consideremos o processo de representação através da oposição clássica entre sujeito e objeto.

O objeto só se torna o que é através da operação do sujeito que o coloca como tal, precisamente ao opor-se a ele. O objeto é constituído na sua relação com o sujeito, que é o trabalho do sujeito. Mas o sujeito não é nada fora desta relação, é o puro poder de oposição, o poder que institui o objeto. No processo de consciência descrito pela relação do sujeito com o objeto, a consciência não é o sujeito como realidade autônoma, distinta do ser do objeto, é a relação indivisível dos dois termos. Que o sujeito e o objeto são apenas elementos abstratos cuja unidade define por si só a essência concreta da consciência é, segundo M. Henry, uma afirmação constante da filosofia da consciência, desde o idealismo até aos nossos dias. “O ego da consciência”, diz Schelling, citado por Henry, “não é um sujeito puro, é ao mesmo tempo sujeito e objeto” 2), e Merleau-Ponty faz-lhe eco no nosso tempo quando declara: “o sujeito e o objeto aparecem como dois momentos abstratos de uma única estrutura [35] que é a presença” 3). A consciência não é o sujeito, ou melhor, ela só constitui o sujeito na medida em que este último é esta pura relação ao objeto que engendra o objeto enquanto tal. Mas o que significa este devir do objeto? Na objetividade, o ser ganha acesso à presença, à existência fenomenal. O significado ontológico do dualismo torna-se então claro: a consciência, ou o sujeito como relação ao objeto, é o ser do objeto, o fundamento da presença do ser, constitui o ser do ente. É isto que Sartre afirma explicitamente quando escreve: “O conhecente… não é outra coisa senão o que faz com que haja… uma presença” 4), de modo que a atividade conhecente se resolve no ser-aí que ela posta, e é de fato, como Sartre admiravelmente o exprime, “a pura solidão do conhecido” 5).

Na oposição entre sujeito e objeto esconde-se, de fato, a posição de uma única essência, a essência comum aos dois termos, e que, na forma da sua relação, constitui o fundamento de todos os fenômenos possíveis, a essência da manifestação. “O dualismo tradicional”, diz M. Henry, “é um monismo ontológico” [MHEM, 107].


PS: DUFOUR-KOWALSKA, Gabrielle. Michel Henry. Un philosophe de la vie et de la praxis. Paris: Vrin, 1980, p. 34-35

1)
Holzwege [GA5], Klostermann, Frankfurt-am-Mein, 1950, p. 133, citado em MHEM, 100
2)
Système de l’idéalisme transcendantal, trad. P. Grimblot, Ladrange, Paris, 1842, p. 65, citado em MHEM, 104
3)
Phénoménologie de la perception, Gallimard, Paris, 1945, p. 492, citado em MHEM, 104
4)
L'Être et le Néant, Gallimard, Paris, 1943, p. 225, citado em MHEM, 106
5)
ld., p. 227, citado em MHEM, 106.
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