Solomon (2003) – Emoções e escolha

Data: 2025-11-03 08:06

Not passion’s slave

Emotions and choice

* A interrogação inicial sobre a escolha das emoções (como raiva, ciúme, amor, ressentimento ou ódio) e a consequente responsabilidade por elas parece insólita devido à concepção tradicional de que as emoções são ocorrências que acontecem ao (ou “no”) indivíduo, sendo vistas como a marca do irracional e do perturbador.

* Tradicionalmente, as emoções foram entendidas como sentimentos ou sensações, ou, numa perspectiva mais recente, como perturbações fisiológicas.

* A tese central proposta é que as emoções não são ocorrências e não acontecem ao indivíduo, mas são, antes, racionais e finalistas (propositivas), e muito semelhantes a ações, sugerindo que escolhemos uma emoção de modo muito parecido a como escolhemos um curso de ação. * As emoções são intencionais, ou seja, as emoções são “sobre” algo, como no exemplo: “Estou zangado com o João por ter roubado o meu carro.”

* A tentação de distinguir dois componentes na experiência da raiva — o sentimento de raiva e o objeto da raiva (“o que estou zangado *sobre*”) — é um erro duplo.

* Uma vez que os sentimentos não têm “direções,” e o sujeito está zangado “sobre” algo, a relação entre o estado de estar zangado e o objeto da raiva não é uma relação contingente entre um sentimento e um objeto, mas sim uma conexão conceptual.

* Também “o que estou zangado sobre” não pode ser separado do estado de estar zangado, embora o fato objetivo do roubo seja distinto da raiva do sujeito por esse fato.

* A ausência de uma distinção legítima entre o sentimento de raiva e o objeto da raiva, ou a conexão conceptual em vez de causal entre eles, explica por que uma mudança no objeto da raiva exige uma mudança na própria raiva.

* As emoções tipicamente envolvem sentimentos, podendo até envolvê-los essencialmente, mas os sentimentos nunca são suficientes para diferenciar e identificar as emoções, e uma emoção nunca é simplesmente um sentimento ou um sentimento acrescido de algo mais.

* A tese de que as emoções estão conceitualmente ligadas ao comportamento (atribuir uma emoção implica atribuir comportamentos de raiva) surgiu após a descoberta de que as emoções não são sentimentos ou ocorrências.

* A ideia de que as emoções são causadas surgiu naturalmente da concepção de que são ocorrências, mas o autor argumenta que, se as emoções não são ocorrências, não podem ser causadas.

* A causa de uma emoção deve ser distinguida do seu objeto (“o que a emoção é sobre”).

* A semelhança entre emoções e crenças é explicada pela tese de que as emoções são juízos — juízos normativos e frequentemente morais.

* A ideia de que a emoção é um juízo normativo ou moral contradiz várias teses filosóficas amplamente aceites.

* O objeto de uma emoção não é simplesmente um fato, nem um fato sob certas descrições, mas é ele próprio “afetivo” ou normativo, sendo definido, em parte, por esse juízo normativo.

* A diferença entre as atribuições de emoções a si próprio (primeira pessoa) e a outros (terceira pessoa) sempre foi reconhecida, e, embora a visão tradicional a explicasse pela peculiar “privacidade” da sensação, a tese de que emoções são juízos pode explicá-la de forma mais convincente.

* A diferença entre as atribuições em primeira e terceira pessoa reside no campo dos “paradoxos pragmáticos”, pois, dada uma emoção, há certas crenças que o observador pode ter (incluindo sobre o sujeito), mas que o sujeito não pode ter.

* A tese de que a pessoa que sente a emoção está na pior posição para distinguir a causa do seu estado do objeto é uma necessidade conceptual.

* Se as emoções são juízos e podem ser “desarmadas” (e também instigadas) por considerações de outros juízos, torna-se claro como as emoções são, em certo sentido, o agir do indivíduo, e como o indivíduo é responsável por elas.

* Uma vez que os juízos normativos podem ser alterados por influência, argumento e evidência, e uma vez que o indivíduo pode procurar essa influência, provocar o argumento e buscar a evidência, ele é tão responsável pelas suas emoções quanto pelos juízos que faz.

* Fazer juízos é algo que o indivíduo faz, e não algo que lhe acontece ou que meramente causa, embora precise de estar em circunstâncias apropriadas para emitir um juízo, ter alguma evidência e conhecer o objeto do juízo.


PS: SOLOMON, Robert Charles. Not passion’s slave: emotions and choice. New York: Oxford university press, 2003.